VIOLÊNCIA
MIMÉTICA, ADULTOS, CRIANÇAS, ANIMAIS
É de suma importância a
abordagem que defensores dos
animais procuram dar, hoje, à questão da violência contra animais, como
definidora da matriz cognitiva e moral, que passa a ser ativada em todas as
formas de relação de seres humanos com quaisquer outros animais, algo que desde
Pitágoras, passando pelos judeus, cristãos, budistas, hinduístas, e, finalmente,
pela investigação das ciências comportamentais, vem sendo confirmado como uma
questão relevante no trato da origem, aprendizado e expressão de formas humanas
violentas de tratar outros animais, humanos e não-humanos.
A questão,
porém, não deve ser vista como problemática ou emblemática apenas para as
crianças que praticam a violência, ou para aquelas que, na infância, tendo
sofrido violência no âmbito da família, sofrem uma ruptura na sua própria
personalidade moral, ao perderem o vínculo de confiança em relação a outros
seres vivos em condições privilegiadas para uso da força ou para violentar os
desprotegidos ou fragilizados.
Lembro, na oportunidade, depois de muito
ter aprendido com o médico alemão Tilman FURNISS, que escreveu 'Abuso Sexual da
Criança', que não apenas as crianças que praticam abuso contra os animais formam
em si mesmas uma matriz cognitiva para depois praticarem abusos contra humanos.
É bom que seja publicamente enfatizado, que toda criança, exposta como
testemunha de atos de violência contra animais, torna-se aprendiz da violência,
ainda que no momento da cena contra o animal essa criança não tenha tomado parte
ativa no ato.
O ser humano aprende não apenas fazendo, mas, também, e
principalmente, observando e imitando. Nesse sentido, tanto faz se a criança é
vítima direta de violência praticada contra ela por humanos adultos, ou se ela é
testemunha de violência de alguma forma de violência sistemática, praticada
contra outros seres humanos e não-humanos à sua volta, com os quais ela se
identifica em seus aspectos de fragilidade e impotência. Todas as crianças,
submetidas diretamente a atos de violência, ou testemunhas impotentes de
violência, tornam-se sabedoras desse fazer, e portadoras da matriz de violência
que pode ser empregue alguma vez, contra humanos ou contra outros animais.
O mesmo deve ser levado em conta, quando se faz a campanha contra a
violência infantil, quando as vítimas são animais de outras espécies. As
crianças que praticam essa forma de violência já têm a matriz cognitiva e moral
de inflição de sofrimento a outros seres vivos fragilizados e impotentes. Só por
isso já merecem ser amparadas com um tratamento pedagógico e psicológico
especial, para que abandonem o gozo de causar dor e sofrimento a seres em
condições fragilizadas e vulneráveis a atos de hostilidades, praticados por
outros em condições favoráveis ao uso da força e abuso de poder. Por outro lado,
é bom que fique bem claro que os atos infantis de violência, contra outras
crianças ou contra animais, revela que essa criança já testemunhou atos de
violência, ou, possivelmente, já os sofreu no próprio corpo. Ao praticar a
viôlência, uma criança "relata" para nós o que já sofreu ou o que já viu
praticar em sua presença. Cuidar, pois, dessas crianças, inclui cuidar do
entorno familiar, escolar e social no qual se forma sua matriz cognitiva
moral.
Mas, ainda no que diz respeito ao universo infantil, devemos ter
em conta que o fato de uma criança praticar abusos contra os animais, para além
de fomentar nela mesma a matriz de hostilidade e agressividade contra seres
fragilizados, se ela o faz na presença de outras crianças, e, se, por sua vez,
essas crianças sentirem medo do que estão a presenciar, o efeito danoso de tais
práticas não se faz sentir apenas nos animais. As crianças, aterrorizadas por
presenciarem, impotentes, atos de crueldade contra outros bichos, têm abalada,
em sua própria estrutura emocional e moral, a matriz cognitiva e ética da
confiança nos demais seres vivos, o que as pode levar a concluir que a única
maneira de escapar da violência e de não sofrer, é tornar-se violentas também.
Nesse sentido, é bom que saibamos que a prática da violência, por parte de uma
criança, pode revelar duas coisas: a primeira, que essa criança já sofreu ou já
testemunhou a violência. A segunda, que essa criança já chegou a uma conclusão:
a de que a prática de tais atos a protege, pois ao mostrar-se violenta,
agressiva e bruta, assusta aqueles que eventualmente a poderiam violentar. Esses
dois "recados" nos são dados na violência infantil contra os animais.
Por essa razão, o ato de testemunhar, impotente, atos de violência,
derroca no sujeito moral, fragilizado por sua condição vulnerável, a estrutura
moral necessária para a construção de uma personalidade confiante e desejosa de
fazer o bem.
Por outro lado, e isso também deve ser levado em conta nas
campanhas desencadeadas pelo fim da violência contra os animais, a violência
praticada por adultos contra os animais, e falo aqui da violência
institucionalizada do mercado de produção da carne, dos cosméticos, dos
artefatos derivados de animais, do aprisionamento perpétuo de animais em circos
e zoológicos, e de todas as demais formas de expropriação da liberdade e da
dignidade dos animais, cultivadas em nossa sociedade sem o menor pudor, também
formam, ou melhor, deformam a matriz cognitiva e moral que constitui o sujeito
como sujeito ético, capaz de praticar o bem em favor daqueles que se encontram
em condições menos favoráveis.
Assim, se expomos as crianças a toda
sorte de violência que nós, adultos, praticamos, ou que permitimos que seja
praticada sem nosso protesto, contra animais, crianças ou quaisquer outros
sujeitos vivos em condições fragilizadas de existência, formamos nessas crianças
a matriz cognitiva que as tornará insensíveis ao sofrimento alheio, e, na pior
das hipóteses, aptas a o infligirem sem o menor pudor a outros seres vivos
sensíveis.
Do mesmo modo como se cuida, hoje, após o livro de Tilman
Furniss, de dar assistência moral adequada, não apenas às crianças que sofrem
abuso sexual no âmbito da família, mas, também, a todas as outras crianças que,
porventura, tenham sido testemunhas aterrorizadas da violência sistemática
praticada contra aquelas, também devemos dar atenção especial, hoje, às crianças
que sofrem, na condição de testemunhas impotentes, a experiência de presenciar a
violência praticada por nossa sociedade contra todas as demais espécies animais,
em todas as formas tradicionais, com as quais parece que nos temos acostumados.
Se quisermos eliminar a matriz cognitiva da violência, nas crianças e
nos adultos, devemos dar apoio psicológico, pedagógico e ético a todos os seres
humanos que, de forma direta ou indireta, têm presenciado práticas sistemáticas
de violência, por parte de outros membros da nossa sociedade.
Conforme o
afirmo acima, desde Pitágoras, passando pela tradição judaica mais antiga,
sabe-se que nada que o ser humano pratica o deixa incólume. Nosso ser resulta da
prática repetida de certas ações, como bem o aponta Aristóteles em seu livro
Ética a Nicômaco, em outras palavras, nossa primeira natureza, a biológica, é
transformada através do nosso próprio investimento, numa certa forma
"específica" de ser humano, que se define pela repetição de ações boas e pela
eliminação de atos que possam causar o mal. E, por vezes, essa forma de ser
humano, que repetimos com nossas práticas, indicam de fato que ainda estamos bem
longe de nos tornarmos naquilo que dizemos gostaríamos de ser. Ou será que o
ideal de "humanos" que apregoamos para nos elevar sobre os demais seres vivos,
comporta as práticas das quais francamente gostaríamos de livrar nossa
natureza?
Sônia T. Felipe
Núcleo de Ética Prática/UFSC
Florianópolis, SC - Brasil, 8/6/2004
(autorizado
para divulgar na página do É O BICHO e de outros sites defensores dos
animais)