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A URGÊNCIA DE UMA REFLEXÃO
 
Quando assistimos a um noticiário e vemos por todo o mundo homens cometendo crueldades chocantes, esquecemos de olhar as nossas próprias crueldades cotidianas. Aquelas que, por fazerem parte de nossa  rotina, passam desapercebidas.
 
O homem vive hoje numa espécie de torpor mental em que não há nenhum  questionamento. A maior parte da humanidade vive um sono psíquico.  Ainda está em um meio termo entre o animal, cuja consciência é mais limitada, e o ser humano plenamente consciente. Grande parte da humanidade ainda se apega  a um modo de vida que repete os mesmos erros dos seus  ancestrais, e quase  não percebe o quanto isso que lhe traz sofrimento. "Desligar o piloto automático" e refletir sobre hábitos, preconceitos, condicionamentos é, sem  dúvida, o primeiro passo para "o homem aprender a ser humano", como escreveu  Joy Mills.
 
E como nada está isolado na natureza manifestada, é urgente que cada um de nós questione o hábito de comer carne. E quem já é vegetariano deve começar a pensar na melhor maneira de disseminar informações sobre as conseqüências do uso da carne.
 
A profunda e sublime beleza da Lei da Unidade da Vida é tragicamente distorcida, na maneira como está exposta aos nossos olhos. Assim, o consumo da carne faz mal a quem come e a quem não come carne, às florestas e ao planeta todo, que já começa a mostrar, em áreas imensas, a desertificação. A atividade pecuária é o fator principal de destruição das florestas tropicais, principalmente no Brasil, na Austrália e na África. O efeito estufa é ocasionado tanto pelas queimadas para estabelecer pastagens, como pela criação dos animais em si, e isso provoca a falta de água. Nada está isolado.
 
A população bovina, que é de aproximadamente 1,5 bilhões, afeta diversos ecossistemas em todos os continentes, consome a quarta parte de toda a safra de grãos do planeta, e a triste ironia é que enquanto alguns morrem com problemas ocasionados pelo consumo da carne - por exemplo, câncer, derrames cerebrais, ataques cardíacos - outros, em número bem maior, mais de um bilhão de seres humanos, passam fome. O complexo industrial da carne é uma ameaça à sobrevivência ecológica e econômica da humanidade.
 
E o respeito para com o animal? O animal sofre as conseqüências de uma vida completamente artificial, é alimentado para a eficiência do mercado, e não  para a sua saúde; é confinado em situações cruéis e estressantes, é injetado com produtos químicos, constrangido e controlado do nascimento à morte. O frango, por exemplo, para engordar em 45 dias, recebe na ração o equivalente a 26 injeções de hormônios, e durante a sua vida não tem possibilidade de  abrir suas asas ou dar um passo, porque dessa forma, praticamente imóvel, engorda "no tempo certo".
 
Há alguns anos participei, em São Paulo, de um Congresso sobre bem-estar animal. Lá assisti a um filme, feito com uma película que é sensibilizada pelo calor, filmado de noite, às escondidas, mostrando porcos que chegavam ao lugar em que um abate iria ocorrer na manhã seguinte. Os porcos passaram a noite chorando. Via-se com nitidez as lágrimas escorrerem sem parar. Aquelas lágrimas fizeram calar um auditório inteiro emocionado.
 
Quem conhece um pouco de filosofia esotérica sente um outro lado da questão. O medo, a tristeza, os sentimentos já são manifestações de uma criatura que possui uma consciência emocional bem formada. Sabemos que cada animal é expressão da vida divina, uma criatura dotada de sentimento, de inteligência, e que possui o sagrado direito à evolução. Sabemos que a morte de cada uma dessas criaturas não se dá no momento que seu coração pára de bater. O fluído vital dos animais, o seu magnetismo, impregna a carne e também toda a atmosfera em que vivemos.
 
Hoje se mata em menos de um mês o mesmo número de animais mortos em um ano na década de 50. O sofrimento, o medo e o ódio estão presentes em escala industrial no ar que respiramos. Não será por isso mesmo que hoje, nos Estados Unidos, 70 milhões de comprimidos de calmantes e anti-depressivos são consumidos todos os dias?
 
Todos nós gostaríamos de viver em um mundo melhor, baseado na Lei universal do amor - mas o que cada um de nós faz a respeito? Nem todos estão dispostos a deixar um hábito tão arraigado como o de comer carne e ajudar assim a construção de um mundo melhor. Por enquanto ainda é mais cômodo ficar chocado com as crueldades alheias do que repensar certos velhos hábitos.

Como bem definiu Lama Govinda: "O carma é a energia do hábito". Seja consciente ou inconsciente, o hábito de comer carne, que é o da crueldade, está gerando um carma correspondente. Enquanto matar para comer, a humanidade não pode ser feliz ou viver em paz pois criará miséria, sofrimento mental e físico; "estes últimos são transmitidos como os maiores males para as gerações futuras, os descendentes dos culpados."
 
Muitas das antigas tradições religiosas preconizam o regime vegetariano para que o ser humano possa desenvolver a sua consciência superior. Pitágoras, Apolônio de Tiana, Platão, Plotino, Porfírio, Clemente de Alexandria, Confúcio, as comunidades cristãs dos primeiros tempos, os essênios, os nazarenos e os gnósticos recomendavam o vegetarianismo. E o senhor Buda disse: "Feliz seria a terra se todos os seres estivessem unidos por laços de benevolência e só fossem ingeridos alimentos que não implicam derramamento de sangue."
 
Diz um Mestre de Sabedoria: "Se as pessoas estiverem dispostas a aceitar e a ver como Deus a nossa VIDA UNA, imutável e inconsciente em sua eternidade, poderão fazê-lo... Quando nós falamos da nossa Vida Una, também dizemos que ela não só penetra, mas é a essência de cada átomo de matéria; e que, portanto, ela não apenas tem correspondência com a matéria mas possui também todas as suas propriedades, etc. - consequentemente, é material, é a própria matéria."
 
Devemos lembrar que o equilíbrio da humanidade depende de um processo dinâmico, que abrange todos os reinos. O respeito que eu tenho pela vida de um animal ou pela vida do planeta é o mesmo respeito que devo ter pela minha vida. O desequilíbrio é criado pelo próprio homem quando se desassocia da Natureza e esquece que faz parte deste Todo.
 
Como diz o Mestre: "A natureza é destituída de bondade ou maldade; ela segue apenas leis imutáveis quando dá vida e alegria ou manda sofrimento e morte,  destruindo o que havia criado. A natureza tem um antídoto para cada veneno, e suas leis possuem uma recompensa para cada sofrimento..."
 
As forças da natureza são poderosas, suas Leis são sábias e imutáveis. O homem é o único ser na natureza que tem o livre arbítrio. Ele, com a sua vontade, pode escolher viver conscientemente essas leis, ou não. A reconciliação do homem com a natureza é um processo lento, que deve ser realizado em várias etapas. Mas é preciso dar o primeiro passo.
 
Dora Sales
Ex-presidente da Sociedade Piracicabana de Proteção aos Animais(SPPA)
Piracicaba/SP